Terminamos um campeonato no qual nosso time foi desmontado e remontado em seu decurso, e mesmo nessa situação de trocar de pneu com o carro andando, chegamos à última partida com a vantagem do empate. Devido a situações adversas no campo tático, no campo da sorte e na disponibilidade de atletas, o Galo não foi campeão. É correto dizer que não foi o Cruzeiro que ganhou, e sim, o Atlético que perdeu.
Se há uma semana e meia a imprensa mineira (ultimamente respondendo também por imprensa azul) incensava o Cruzeiro como um time fora do padrão deste campeonato, sendo pateticamente alcunhado de "Barcelona das Américas", a partir do domingo passado até o dia de ontem, o que se viu foi uma legítima caganeira nervosa do lado da Enseada das Garças. Antes da maravilhosa quarta-feira em que Rentería e sua trupe aplicavam um castigo à megalomania demente dos estrelinhas, o que se ouvia era dizer-se o Campeonato Mineiro como uma taça sem valor, um "campeonato rural", sendo competição de verdade só a Libertadores, mesmo que há quase dez anos a turminha celeste só tenha ganhado mesmo é o tal ruralzinho. Mas veio o choque de realidade, e o medo se apoderou da mirrada e flutuante aglomeração que o clube azul gosta de chamar de "torcida", de tal forma que a loja CruzeiroMaria poderia até lançar uma linha de fraldas, que ia vender muito bem.
Sem Libertadores para a cruzeirada arrotar, coisa já certa e costumeira em Minas Gerais, o tal "campeonato rural", de repente, ficou mais importante que jogar com o Barcelona da Vida Real em Dubai. Esse trofeuzinho caseiro valorizou mais rápido que imóvel e gasolina! Veja bem, como são as coisas, não? Lógica de cruzeirense é realmente uma coisa muito engraçada. A começar pelo fato de alguém realmente querer ser cruzeirense. Mas enfim...
Finda a peleja, o que fica pra posteridade nem é o título que alguém tenha conquistado ou deixado de conquistar. Fica é a apuração de tudo o que se disse, da sardinha que a imprensa puxou pro lado azul, sabe-se lá a troco de que favores (todos sabem da fama de mafiosos de certos dirigentes daquelas bandas), e podemos dizer que venderam uma baita mentira: esse time do Cruzeiro é fraco pra diabo, e só ganhou porque o Atlético assim o permitiu.
Vejamos: enquanto o Galo fez do Campeonato Mineiro um laboratório, vendeu jogadores, dispensou outros de forma repentina, impossibilitando um pré-planejamento de reposição, totalizando pelo menos cinco titulares deixando o clube, perdendo o prazo de inscrição de novos atletas, o que se podia esperar para um torneio tão curto? Em determinado momento, até
escrevi aqui um texto que afirmava ser o Galo, então, fragilíssimo e sujeito a uma goleada, caso a final contra o rival ocorresse naquela ocasião. Texto muito criticado, mas que o tempo se encarregou de mostrar que o que parecia um desvario era a mais simples verdade. Esse era o Atlético, desmantelado sem competitividade. O que poucos contavam é que, rapidamente, a equipe se recompôs como pôde, brilhando a estrela do treinador Dorival Júnior na arte de visualizar e lapidar talentos precoces e criar uma nova estrutura tática para cobrir a emergência da fase do mata-mata.
Ótimo trabalho, infelizmente obnubilado pela péssima partida final, mas que
há de ser reconhecido e sequenciado para o restante do ano. Saldo do Galo:
poder de recuperação, lançamento de jovens talentos e promessas, raça, humildade de reconhecer os próprios erros e a promessa de um promissor e próspero futuro imediato.
No outro corner, havia o festejado Cruzeiro,
empurrado guela abaixo como sumidade do futebol, algo superior ao plano terrestre, tal qual seus torcedores se regozijam ao falsetear um suposto "sangue azul", pessoas de uma estirpe diferente, uma "cultura superior",
tipo o Ed Motta se achando bonito.
O Cruzeiro já era o campeão declarado, não havia chance de ter pra mais ninguém. Era como se fosse o único time profissional do campeonato, jogando contra pobres juniores. Do jeito que falavam, faltava pedir para que os azulinos pegassem leve com os adversários.
Veio o primeiro jogo da final. O Atlético entrou em campo já com o saldo moral de ter derrotado os "invencíveis" por 4x3 na fase de classificação, mas isso não importava, devia ter sido um acidente. E ao apito inicial, quando todos esperavam um vareio das celestes, eis que o esquadrão listrado partiu pra cima, dominou o jogo, venceu, mesmo com o juiz dando uma baita ajuda ao adversário (inclusive não marcando um pênalti escandaloso no Neto Berola). Como é que podia ser? O Galo, com seu time montado às pressas, vencer os que se autoproclamavam superpoderosos e que contavam com uma base formada há pelo menos quatro anos? Foi o que aconteceu, o Galo venceu o primeiro round com propriedade, com direito à baixaria da apelação dos jogadores de azul, em especial de um babaca de marca maior, chamado Fabrício, que inventou confusão onde não tinha e faltou com o respeito aos colegas de profissão e à inteligência de todos os torcedores de futebol do mundo, tentando inverter uma situação se vitimizando ridiculamente. Vergonha alheia em níveis absurdos!
Uma pena que, no segundo jogo, o Galo não tenha sido tão feliz. Entrou sem interesse, não matou o jogo quando podia, deu todas as chances pro Cruzeiro e acabou perdendo. Perdeu o campeonato, mas manteve a honra intacta. Pelo contrário, o Cruzeiro pode ser considerado a decepção de 2011 do futebol brasileiro, por prometer tanto e entregar tão pouco, passando um aperto dantesco para vencer uma equipe em franca formação, até então considerada inapta a ao menos jogar de igual pra igual com o Barcelona de mentirinha. De quebra, o constrangimento azul aumenta pelo fato de o título ter vindo apenas porque o Atlético não quis, de fato, ser campeão. Saldo do Cruzeiro: ganhou a taça, mas perdeu a dignidade (se é que já teve), ganhou o troglodita Fabrício como símbolo da torcida, perdeu o crédito para se autoproclamar qualquer coisa, e pôs em dúvida a competência de sua equipe para ganhar uma simples partida sem ajuda de juiz e de imprensa. E também demonstrou morrer de medo de seu carrasco histórico, o Atlético (mas isso não era novidade pra ninguém). Também, o que esperar de um time que se gaba de "participar" de competições?
Quanto às torcidas, também fica a do Galo como vencedora moral desse primeiro semestre, logicamante considerando a imensa desproporção entre a Massa e o pequeno ajuntamento de torcedores azuis, em qualquer lugar do mundo. Por não ter se fiado no mito da superioridade antes da prova, por ter sabido exatamente o que comemorar quando do primeiro triunfo, por se mostrar orgulhosos de serem do Clube Atlético Mineiro mesmo após o revés, a torcida do Galo sempre esteve, sim, em um patamar diferente dos outros grandes clubes. Que dirá da reunião de coitados que é a torcida cruzeirense, que, morrendo de medo do Atlético, rasgou a calcinha nas ruas em comemoração a escapar do nosso castigo, num frenesi onde os fogos se confundiam com os peidos frouxos de covardia dessa turma que tenta ganhar na base da intimidação antes do mano-a-mano, antes de por a bola no chão e provar que é melhor. Acabou que eles ganharam, mas provar que são o Barcelona ainda tá difícil. Afinal, alegria de cruzeirense é "participar" de Libertadores. Tipo o Uberaba ficando feliz de participar da Taça Minas Gerais. Taí, o Cruzeiro é o Uberaba das Américas.
O Galo não é campeão,
mas está de parabéns por suplantar tantas dificuldades em tão pouco tempo, e fazer o time mais arrogante do Brasil suar o fiofó pra ganhar apertado de um time de garotos (que deixaram o Cruzeiro ganhar). Para nós, não é algo digno de mérito, mas frente à vergonha que é ser cruzeirense nesse momento, até que saímos do Campeonato Mineiro com um saldo positivo.
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